{"id":1528,"date":"2010-11-11T19:25:16","date_gmt":"2010-11-11T17:25:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.funiber.org\/pt\/?p=1528"},"modified":"2010-10-19T19:31:10","modified_gmt":"2010-10-19T17:31:10","slug":"carvao-usado-no-brasil-incentiva-desmatamento-no-paraguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funiber.blog\/pt\/meio-ambiente\/2010\/11\/11\/carvao-usado-no-brasil-incentiva-desmatamento-no-paraguai","title":{"rendered":"Carv\u00e3o usado no Brasil incentiva desmatamento no Paraguai"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-622\" src=\"http:\/\/blogs.funiber.org\/meio-ambiente\/files\/2010\/10\/carvao_int-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/>No departamento paraguaio de San Pedro, a ind\u00fastria do carv\u00e3o vegetal est\u00e1 &#8211; literalmente &#8211; a pleno vapor. Matas cortadas, fornos de pequeno e m\u00e9dio porte \u00e0 frente das casas dos agricultores locais, caminh\u00f5es carregados de carv\u00e3o, madeira jogada \u00e0 beira da estrada esperando para ser recolhida. Ao lado do gado no pasto, um ip\u00ea-roxo solit\u00e1rio \u00e9 o registro da vistosa mata que um dia existiu naquela paisagem. O desmatamento em grandes \u00e1reas \u00e9 substitu\u00eddo pelas \u00e1reas desmatadas nas pequenas propriedades, adaptando-se aos novos tempos e leis do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><!--more-->Quem v\u00ea as modestas casas de moradores da \u00e1rea rural com estoques de carv\u00e3o armazenados no terreno pensa, de imediato, em qual seria o destino de tal produ\u00e7\u00e3o. E, ao mesmo tempo, reflete sobre o que motiva essa cadeia produtiva do carv\u00e3o no Paraguai. Seria uma decorr\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o de pobreza dos camponeses, aos quais faltam op\u00e7\u00f5es? Ou uma situa\u00e7\u00e3o estimulada pelos pa\u00edses vizinhos, com destaque para o Brasil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entre os caminh\u00f5es carregados que transitam pelas rodovias da regi\u00e3o, h\u00e1 os que ostentam interessante pista: desenhos de bandeiras do Paraguai, Argentina e Brasil. E uma pesquisa nas importa\u00e7\u00f5es de produtos paraguaios por empresas brasileiras revela que sider\u00fargicas no Brasil importam carv\u00e3o paraguaio, sem conhecer ou fiscalizar praticamente qualquer aspecto &#8211; ambiental, trabalhista ou social &#8211; referente \u00e0quela produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Comunidades ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a situa\u00e7\u00e3o dos produtores familiares \u00e9 preocupante, a dos ind\u00edgenas \u00e9 classificada como &#8220;bastante problem\u00e1tica&#8221; por Nicolas Benitez, l\u00edder ind\u00edgena da Coordena\u00e7\u00e3o Interegional dos Povos Originais (Cirpo), que representa cerca de 20 comunidades em quatro departamentos do Paraguai (Canindey\u00fa, Caaguaz\u00fa, Guayra e Itap\u00faa). Com problemas nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, terra, e enfrentando a contamina\u00e7\u00e3o de seus recursos naturais por agrot\u00f3xicos, os ind\u00edgenas convivem com um aumento crescente de problemas, inclusive arrendando terras para as empresas do agroneg\u00f3cio. Algo que a lei n\u00e3o permite, mas ocorre na pr\u00e1tica, segundo Benitez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os ind\u00edgenas da regi\u00e3o vendem sua pequena produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola aos carros que passam na rodovia, buscando chamar a aten\u00e7\u00e3o com a coloca\u00e7\u00e3o de ab\u00f3boras e mandiocas \u00e0 beira da estrada. Os filhos se aglomeram no quintal das pequenas casas de barro, enquanto os pais buscam comercializar a produ\u00e7\u00e3o, sem usar o idioma espanhol &#8211; falam s\u00f3 o Guarani.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma ab\u00f3bora m\u00e9dia sai por R$ 2. Bem pr\u00f3ximo dali, no acostamento da estrada, uma carga de madeira aguarda para ser retirada. Parece n\u00e3o pertencer a ningu\u00e9m, mas certamente possui um portador que deve chegar a qualquer momento (preferencialmente \u00e0 noite) para recolh\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse contexto, fica mais f\u00e1cil compreender a explica\u00e7\u00e3o de Ladislau Bernardo, dirigente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional Campesina (FNC) no departamento de Canindey\u00fa, De acordo com ele, &#8220;muitas vezes, a produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o acaba sendo a \u00fanica fonte de riqueza dos camponeses&#8221;. Uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1tica que, quando as autoridades cogitaram proibir a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o vegetal na regi\u00e3o, tiveram como resposta um levante dos camponeses e ind\u00edgenas da regi\u00e3o. Diante da revolta, as autoridades recuaram. E a produ\u00e7\u00e3o local &#8220;continua a ir para o Brasil e para algumas ind\u00fastrias no Paraguai&#8221;, segundo o dirigente campon\u00eas, em entrevista concedida na rodovi\u00e1ria de Curuguaty, no departamento de San Pedro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Sider\u00fargicas brasileiras<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O Centro de Monitoramento de Agrocombust\u00edveis (CMA) apurou que parte do carv\u00e3o produzido no Paraguai \u00e9, de fato, comprado por sider\u00fargicas brasileiras, sobretudo aquelas localizadas em Minas Gerais, para servir de mat\u00e9ria-prima e combust\u00edvel em fornos de ferro-gusa. O material tamb\u00e9m \u00e9 trazido por pequenas importadoras, que depois repassam para as pr\u00f3prias sider\u00fargicas ou para restaurantes, onde s\u00e3o usados em churrasqueiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Entre janeiro e junho de 2010, o Brasil importou 66 mil toneladas de carv\u00e3o e produtos equivalentes do Paraguai, alta de 120% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2009. A movimenta\u00e7\u00e3o financeira chegou a US$ 5,3 milh\u00f5es, a d\u00e9cima-primeira categoria de produtos em volume financeiro. De acordo com um comprador de carv\u00e3o de uma sider\u00fargica mineira, o volume importado poderia ser at\u00e9 tr\u00eas vezes maior, n\u00e3o fosse a crise por que passam algumas fabricantes de ferro-gusa. Voltadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, algumas mant\u00eam os fornos desligados desde 2008, ano de in\u00edcio da crise internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Grandes sider\u00fargicas brasileiras compraram carv\u00e3o vegetal no Paraguai. \u00c9 o caso, por exemplo, da Gerdau, uma das maiores do mundo. Questionada sobre a exig\u00eancia de par\u00e2metros socioambientais dos fornecedores que fazem parte de sua cadeia produtiva, a empresa afirmou: &#8220;A Gerdau esclarece que realizou importa\u00e7\u00f5es pontuais de carv\u00e3o vegetal do Paraguai, seguindo rigorosamente a legisla\u00e7\u00e3o ambiental vigente. A \u00faltima importa\u00e7\u00e3o do produto do Paraguai foi realizada em 2008 pela empresa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O carv\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 adquirido por sider\u00fargicas como Mat-Prima e Valinho, ambas de Divin\u00f3polis (MG); Cisam, de Par\u00e1 de Minas (MG); e Ferguminas, de Ita\u00fana (MG). J\u00e1 grande parte das pequenas importadoras ficam nos munic\u00edpios de Ponta Por\u00e3 (MS), que faz divisa com a cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, e nos munic\u00edpios de Novo Mundo (MS) e Gua\u00edra (PR), ambos na divisa com a cidade paraguaia de Salto del Guair\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Criada em 1993, a Mat-Prima tem capacidade de produzir 12 mil toneladas de produtos sider\u00fargicos por m\u00eas. A maior parte \u00e9 exportada pelos portos do Rio de Janeiro (RJ) e de Vit\u00f3ria (ES). A empresa compra o produto paraguaio por meio de pequenas importadoras e tamb\u00e9m usa combust\u00edvel brasileiro fabricado nos Estados de Minas Gerais, Goi\u00e1s e Mato Grosso. No caso do produto paraguaio, a Mat-Prima avalia que qualquer controle ambiental \u00e9 de responsabilidade do produtor e da empresa importadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m fabricante de ferro-gusa, a sider\u00fargica Cisam opera com carv\u00e3o vegetal produzido no Brasil e no Paraguai. De acordo com um representante da empresa, o carv\u00e3o \u00e9 totalmente produzido com madeira oriunda de florestas plantadas, inclusive os carregamentos oriundos do Paraguai. A \u00e1rea de reflorestamento localizada no Paraguai foi implantada na cidade de San Juan Nepomuceno, no departamento de Caazap\u00e1, e \u00e9 um empreendimento comandado por brasileiros. J\u00e1 as sider\u00fargicas Ferguminas e Valinho est\u00e3o com os fornos desligados, \u00e0 espera da recupera\u00e7\u00e3o do mercado. Quando est\u00e3o em funcionamento, as duas empresas utilizam carv\u00e3o oriundo do Paraguai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Tr\u00e1fico e contrabando<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m dos problemas ambientais, sociais e trabalhistas que se escondem atr\u00e1s do carv\u00e3o paraguaio, traficantes de drogas e contrabandistas se valem do fluxo mercantil para introduzir produtos ilegais no Brasil. De acordo com fonte que consultada pela reportagem (cuja identidade ser\u00e1 preservada), &#8220;o carv\u00e3o \u00e9 um convite para esse tipo de atividade, pois bloqueia o scanner [esp\u00e9cie de raio-x] utilizado na fiscaliza\u00e7\u00e3o de fronteira&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m disso, o carv\u00e3o &#8220;prejudica o olfato dos cachorros, \u00e9 sujo e absorve o cheiro dos materiais&#8221;. At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, o carv\u00e3o paraguaio entrava quase sem impostos no Brasil. O pre\u00e7o era muito baixo: um caminh\u00e3o carregado custava algo em torno de R$ 1 mil. Ap\u00f3s muitos conflitos para que o pre\u00e7o do carv\u00e3o importado fosse aumentado, a tonelada, que entrava no Brasil por cerca de US$ 20 d\u00f3lares, agora est\u00e1 em torno de US$ 100.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Jos\u00e9 Alberto Iegas, chefe da delegacia da Pol\u00edcia Federal (PF) na cidade fronteiri\u00e7a de Foz do Igua\u00e7u (PR), explica que \u00e9 dif\u00edcil estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o direta entre uma eventual carga ilegal de drogas ou contrabando com algum produtor de soja, de carv\u00e3o ou de qualquer outro produto do Paraguai. &#8220;O mais comum \u00e9 o dono do produto principal nem saber que a carga estava com a droga, sendo que nesses casos normalmente o motorista \u00e9 cooptado pelo esquema diretamente. Mas acontece tamb\u00e9m do traficante comprar a carga e misturar, fazendo o servi\u00e7o completo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ele acrescenta que os flagrantes desse tipo ocorrem normalmente em fun\u00e7\u00e3o de den\u00fancias, investiga\u00e7\u00f5es, pelo perfil da carga, ou pelo perfil da documenta\u00e7\u00e3o. Segundo o chefe da PF, embora seja complicado de se apontar a rela\u00e7\u00e3o direta entre o produto ilegal e algum produtor, \u00e9 certo, por outro lado, que &#8220;os grandes traficantes normalmente possuem v\u00e1rias atividades legais para a lavagem do dinheiro da droga, do contrabando, inclusive pela compra de propriedades rurais, ou por meio de investimentos no gado&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em Ponta Por\u00e3 (MS), a assessoria de imprensa da PF afirma que flagrantes de droga e carga contrabandeada dentro dos carregamentos de carv\u00e3o e de soja s\u00e3o comuns. Conforme a assessoria, trata-se de um subterf\u00fagio muito usado pelos traficantes da regi\u00e3o, sendo que em uma ocasi\u00e3o recente, foi encontrada uma carga de 11,7 toneladas de maconha em um caminh\u00e3o de soja. De acordo com setor aduaneiro da PF em Foz do Igua\u00e7u (PR), n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com soja que se verifica a situa\u00e7\u00e3o de contrabando e tr\u00e1fico de drogas, mas tamb\u00e9m com o feij\u00e3o, o milho, entre outros.<\/p>\n<h5><em><span style=\"color: #888888\"> Por Ant\u00f4nio Biondi e Marcel Gomes via <a href=\"http:\/\/www.institutocarbonobrasil.org.br\/noticias3\/noticia=726204\">Carbono Brasil<\/a><\/span><\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No departamento paraguaio de San Pedro, a ind\u00fastria do carv\u00e3o vegetal est\u00e1 &#8211; literalmente &#8211; a pleno vapor. 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