Mulheres, ciência e inteligência artificial: desafios na era digital

A inteligência artificial está a transformar a educação, a comunicação e o trabalho a um ritmo sem precedentes. No entanto, a par das oportunidades, surgem também novas questões: a tecnologia ajuda realmente a reduzir as desigualdades ou está a reproduzir os mesmos preconceitos históricos?

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Essa foi a reflexão central do evento online “Tecnologias inteligentes, desigualdades persistentes: as mulheres e a ciência na era da IA”, realizado no âmbito do Dia Internacional das Meninas nas TIC.

O encontro reuniu especialistas internacionais para debater sobre género, ciência e tecnologia, colocando o foco nos desafios que as mulheres enfrentam nos ambientes digitais e científicos contemporâneos.

 

Ciência, território e vocações STEAM

A Dra. Raquel Fernández Cézar apresentou o projeto ItineraSTEAM: feira rural de ciência, no qual participa a Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLANTICO). A iniciativa visa aproximar a ciência das escolas rurais e reduzir as disparidades de género e territoriais.

O projeto liga a investigação científica aos conhecimentos tradicionais das comunidades rurais, especialmente aqueles historicamente transmitidos pelas mulheres. Segundo explicou a investigadora, muitas práticas ligadas à agricultura, à alimentação ou ao cuidado do ambiente envolvem conhecimentos complexos que raramente foram reconhecidos como científicos.

Um dos principais objetivos do ItineraSTEAM é despertar vocações científicas em meninas e jovens desde tenra idade, gerando experiências positivas com a ciência e fortalecendo o vínculo entre a escola e a comunidade.

Os preconceitos da inteligência artificial

A Dra. Carolina Escudero abordou a forma como a inteligência artificial reproduz as desigualdades de género presentes na sociedade.

Entre os exemplos mencionados, destacou que muitos sistemas de IA continuam a associar os homens a papéis de liderança ou tecnologia, enquanto as mulheres aparecem ligadas a tarefas de cuidados ou assistência.

Escudero apresentou ainda os resultados da sua investigação sobre o impacto da IA no jornalismo. Uma das conclusões mais relevantes foi que muitas mulheres expressavam emoções como incerteza ou preocupação face à incorporação destas ferramentas, enquanto os homens tendiam a responder a partir de perspetivas mais técnicas.

A investigadora defendeu o conceito de uma «IA imperfeita», entendida como uma tecnologia atravessada por relações de poder, emoções e conflitos sociais.

A Wikipédia e a disputa pelo conhecimento digital

A Dra. Luisina Ferrante centrou a sua exposição nas disparidades de género na Wikipédia e no movimento Wikimedia.

Atualmente, apenas uma em cada dez pessoas que editam a Wikipédia é mulher, o que influencia diretamente os conteúdos disponíveis e a forma como as biografias femininas são representadas.

Ferrante destacou iniciativas como as «editatonas», encontros colaborativos onde mulheres e coletivos LGTBIQ+ criam e melhoram conteúdos relacionados com a diversidade, a cultura e os direitos humanos.

Além disso, alertou que muitos sistemas de inteligência artificial utilizam dados provenientes da Wikipédia para treinar modelos, reproduzindo também os preconceitos existentes na Internet.

Tecnologia com uma perspetiva crítica

A jornada terminou com uma ideia partilhada por todas as especialistas: a tecnologia não é neutra.

Construir ambientes digitais mais inclusivos requer educação crítica, participação coletiva e maior diversidade nos espaços científicos e tecnológicos.

Para além dos avanços técnicos, o grande desafio da inteligência artificial será garantir que o futuro digital não continue a replicar as desigualdades do passado.

O evento online pode ser visualizado no link seguinte.