Além dos painéis solares: energias renováveis e justiça social

Um futuro sustentável requer mais do que apenas tecnologia limpa

A narrativa dominante sustenta que as energias renováveis podem “salvar o planeta”. No entanto, mesmo que amanhã toda a demanda energética mundial pudesse ser suprida por fontes renováveis, isso por si só não garantiria um futuro sustentável. O principal obstáculo não é tecnológico, mas econômico e social. O modelo global vigente baseia-se na produção ilimitada, no consumismo e no crescimento perpétuo, o que nos leva a uma extração de recursos que excede a capacidade de regeneração do planeta. Nesse contexto, mudar a fonte de energia é necessário, mas claramente insuficiente.

Dependência energética e limites planetários

Desde a Revolução Industrial, cada avanço tecnológico esteve ligado aos combustíveis fósseis. Carvão, petróleo e gás natural tornaram-se a base da economia global e um fator geopolítico fundamental, condicionando alianças, conflitos e a evolução de países inteiros. Hoje, cerca de 80% das emissões de CO₂ provêm da queima desses combustíveis, impulsionando um aquecimento global que se manifesta em ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, inundações, incêndios florestais e aumento do nível do mar, conforme documentado por organismos internacionais e centros de pesquisa climática.

Essas alterações não afetam apenas os ecossistemas, mas agravam a instabilidade social, os deslocamentos forçados e os conflitos. Ao mesmo tempo, a demanda energética mundial continua crescendo. O desafio é duplo: reduzir drasticamente as emissões enquanto se atende a uma demanda que, sob o modelo atual, parece não ter limites. Essa tensão nos aproxima da transgressão de vários limites planetários, com a triplicação da pegada material da economia global desde 1970 e a consolidação de um padrão de uso de recursos claramente insustentável.

Energias renováveis em um sistema com demanda insaciável

O potencial físico das energias renováveis é enorme. A luz solar que atinge a Terra em uma hora seria suficiente para cobrir a demanda energética mundial de um ano, e a tecnologia fotovoltaica tem avançado a passos largos. As células solares de silício atingiram um alto grau de maturidade, enquanto inovações como as células de perovskita prometem processos de fabricação mais simples. Além disso, os custos da energia solar fotovoltaica caíram mais de 90% na última década, melhorando sua competitividade.

No entanto, esse sucesso tecnológico coexiste com um problema de fundo: a demanda energética continua aumentando mais rapidamente do que as soluções renováveis são implementadas. O uso de energia e o produto interno bruto permanecem intimamente ligados em escala global. As tentativas de “desacoplar” o crescimento econômico e o uso de recursos têm apresentado resultados muito limitados, e a melhoria da eficiência costuma ser contrariada pelo efeito rebote, em que a redução de custos impulsiona um maior consumo total. Mesmo com uma matriz 100% renovável, um sistema econômico que exige crescimento constante continuaria impulsionando mais produção, mais consumo e mais extração de materiais.

Energia limpa, mas também justa

Uma transição energética verdadeiramente sustentável não pode ignorar a dimensão da justiça. Os materiais necessários para fabricar painéis solares e baterias, como cobre, prata, cobalto, lítio ou terras raras, concentram-se em grande parte no Sul Global. Sua extração costuma estar associada a condições precárias de trabalho, graves impactos ambientais e escassa supervisão regulatória. Relatórios de organizações internacionais documentaram a exploração em minas de cobalto na República Democrática do Congo, os conflitos socioambientais nos salares de lítio da Argentina, Bolívia e Chile, e os danos associados à mineração de terras raras no Sudeste Asiático.

Enquanto os custos humanos e ecológicos se concentram nas regiões fornecedoras de matérias-primas, grande parte dos benefícios econômicos flui para o Norte Global, que consome a tecnologia resultante. Se a expansão das energias renováveis reproduzir esse padrão extrativista, a transição energética corre o risco de se tornar uma nova forma de desigualdade e exploração, em vez de um processo de transformação compartilhada e equitativa.

Mudar o sistema para que as energias renováveis cumpram sua promessa

O avanço científico e tecnológico é imprescindível, mas não basta, por si só, para resolver o desafio energético e climático. O problema é sistêmico e está enraizado em um modelo que valoriza a acumulação, normaliza o consumismo e externaliza seus custos para os ecossistemas e as comunidades mais vulneráveis. Enfrentar esse desafio implica repensar o que entendemos por progresso, para quem produzimos e a que custo. As decisões políticas e econômicas adotadas agora definirão não apenas a trajetória das mudanças climáticas, mas também o tipo de sociedade que surgirá da transição energética.

Nesse cenário, a formação de profissionais capazes de integrar critérios ambientais, sociais e econômicos é fundamental. Programas como o Mestrado em Energias Renováveis, para o qual a FUNIBER promove bolsas de estudo, oferecem uma base sólida para compreender os aspectos técnicos das fontes renováveis, mas também para analisar sua inserção em modelos de desenvolvimento mais justos e sustentáveis. Essa abordagem integral permite que a transição energética não se limite a substituir combustíveis fósseis por tecnologias limpas, mas contribua para transformar o sistema rumo a um futuro verdadeiramente equitativo.

Fonte: Adaptado de “As energias renováveis são essenciais, mas não suficientes para um futuro justo e sustentável”, publicado no The Conversation, complementado com referências do Our World in Data, do IPCC e de organismos internacionais citados no texto original.