Fracking no México: impactos ambientais e desafios para a gestão da água

Um modelo energético com elevado custo ecológico

A expansão da extração de gás natural como eixo da política energética do México até 2026 não é apenas uma decisão económica. Implica uma intervenção direta em ecossistemas terrestres e marinhos frágeis, alterando processos fundamentais para a resiliência ambiental. A fraturação hidráulica, ou fracking, é a principal técnica não convencional utilizada para explorar jazidas de gás e petróleo em xistos, e a sua pegada ecológica é especialmente crítica num país com acentuadas desigualdades hídricas.

Nas regiões áridas e semiáridas do norte do México, onde o stress hídrico já limita o funcionamento dos ecossistemas, o uso intensivo de água para o fracking aumenta a pressão sobre os aquíferos e os corpos de água superficiais. Esta prática pode alterar o ciclo hidrológico, afetar a microbiota do solo e reduzir a disponibilidade de água para espécies endémicas altamente adaptadas a condições extremas. Assim, uma política concebida para reforçar a soberania energética acaba por comprometer a segurança hídrica e a integridade ecológica.

Quadro jurídico e contradições da política energética

Há mais de uma década que a Petróleos Mexicanos (PEMEX) incorporou o fracking como prática habitual, através de contratos com empresas petrolíferas internacionais. Dados recolhidos através de pedidos de acesso à informação indicam que pelo menos 924 poços foram perfurados com esta técnica em Coahuila, Nuevo León, Puebla, Tabasco, Tamaulipas e Veracruz. Apesar dos protestos sociais devido aos impactos ambientais e sanitários associados, ainda não existe uma proibição constitucional ou legal definitiva do fracking no México.

Continuam em vigor os quadros normativos decorrentes da reforma energética de 2013, incluindo a Lei dos Hidrocarbonetos, que permite a exploração de jazidas não convencionais de gás e petróleo de xisto. Embora o discurso oficial fale de transição energética e aumento da capacidade elétrica a partir de fontes renováveis, o atual governo manteve e até ampliou a aposta no gás natural, abrindo mais espaço à fraturação hidráulica. Esta tensão entre a narrativa da transição e a continuidade dos hidrocarbonetos revela uma contradição de fundo entre os objetivos climáticos, hídricos e de biodiversidade.

Água doce sob pressão: o paradoxo geohídrico

Um dos aspetos mais preocupantes é o chamado paradoxo geohídrico, identificado em estudos recentes. As maiores reservas recuperáveis de gás localizam-se em zonas do norte do México com a menor disponibilidade de água doce. Embora faltem estudos de campo conclusivos específicos para o México, análises baseadas em cenários e na experiência de aquíferos como o Edwards-Trinity, no Texas, mostram que a procura de água para o fracking entraria em concorrência direta com os usos domésticos, urbanos e agrícolas em regiões com grave escassez hídrica.

O fracking requer aproximadamente entre 10 e 14 milhões de litros de água por poço, ou seja, cerca de dez vezes mais do que a perfuração convencional. Num contexto de sobreexploração de aquíferos e de crescente variabilidade climática, este volume implica decisões difíceis sobre as prioridades de utilização da água. A política energética que privilegia a exploração de gás sem ter plenamente em conta estes limites hidrológicos corre o risco de agravar os conflitos sociais e violar direitos básicos, como o acesso à água potável.

Poluição dos aquíferos e dos ecossistemas aquáticos

Para além do volume consumido, a forma como o fracking é realizado acarreta riscos específicos para a qualidade das águas subterrâneas e superficiais. Em média, os aquíferos encontram-se a cerca de 500 metros de profundidade, enquanto os poços de extração de gás se situam entre os 1500 e os 2000 metros. Esta sobreposição vertical abre a possibilidade de infiltração de metano nos aquíferos, o que implicaria na contaminação da água que posteriormente pode ser utilizada para consumo humano ou uso agrícola.

Quando a rocha é fraturada, a água regressa à superfície carregada de aditivos químicos e contaminantes, incluindo substâncias cancerígenas como o tolueno e o xileno. Se estas águas residuais não forem geridas com medidas rigorosas, podem chegar a rios e ribeiros, deteriorando a qualidade das águas superficiais e afetando as comunidades humanas e os ecossistemas aquáticos. Embora no México ainda não existam estudos conclusivos que quantifiquem estes impactos, as evidências internacionais e as projeções existentes justificam a aplicação rigorosa do princípio da precaução.

Ecosistemas marinhos vulneráveis e falta de prevenção

Os impactos do fracking não se limitam aos ambientes terrestres. No campo de Lakach, um importante jazigo de gás natural em águas profundas do Golfo do México, as perturbações físicas e acústicas associadas à extração podem afetar comunidades bentónicas caracterizadas por baixa resiliência e lenta recuperação ecológica. A introdução de ruído, sedimentos e estruturas industriais em fundos marinhos delicados pode alterar cadeias tróficas e processos ecológicos pouco estudados.

As evidências disponíveis sugerem que a estratégia atual privilegia a mitigação dos impactos depois de estes terem ocorrido, em vez da sua prevenção. Esta abordagem é dificilmente compatível com a sustentabilidade biológica a longo prazo, especialmente quando se trata de ecossistemas marinhos profundos cuja capacidade de regeneração é limitada e cujos serviços ecossistémicos mal começamos a compreender.

Rumo a uma gestão ambiental e hídrica mais integrada

O estudo do fracking no México exige uma abordagem multidisciplinar que combine conhecimentos hidrogeológicos, ecológicos, sociais e jurídicos. É imprescindível avaliar de forma integral a disponibilidade e a qualidade das águas subterrâneas, os limites ecológicos dos ecossistemas terrestres e marinhos e os possíveis impactos cumulativos de centenas de poços em funcionamento em bacias hidrográficas já sob pressão. A aplicação do princípio da precaução implica reconhecer explicitamente as incertezas atuais, evitar a expansão acelerada de projetos sem avaliação suficiente e reforçar os quadros regulamentares para dar prioridade à proteção dos recursos hídricos.

Neste contexto, a formação de profissionais capazes de conceber, implementar e auditar sistemas sólidos de gestão ambiental torna-se estratégica. Programas académicos como o Mestrado em Gestão e Auditorias Ambientais da FUNIBER oferecem ferramentas para analisar políticas energéticas sob a perspetiva da sustentabilidade, avaliar riscos hidrológicos e ecológicos associados a tecnologias como o fracking e propor alternativas de gestão que integrem a conservação da água e a proteção da biodiversidade na tomada de decisões públicas e empresariais.

Fonte do texto: Elaboração própria com base em «O elevado custo ambiental do “fracking” no México», The Conversation, e em documentos científicos citados nesse artigo.