A silenciosa epidemia do cancro e dos poluentes emergentes
O câncer continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública do mundo. De acordo com as estimativas do GLOBOCAN 2022, quase 20 milhões de novos casos de câncer foram registrados em todo o mundo, o que significa que cerca de uma em cada quatro pessoas desenvolverá a doença ao longo da vida. Os tipos mais frequentes são o cancro do pulmão, da mama, do colo-rectal, da próstata e do estômago e as projecções indicam que, até 2050, os novos diagnósticos poderão aumentar mais de 70%. Neste contexto, é crucial identificar e compreender os fatores ambientais que podem estar a influenciar este aumento, incluindo a crescente exposição aos plásticos e microplásticos.
O que são microplásticos e como chegam ao corpo
O termo microplásticos tornou-se popular a partir de 2004 para descrever fragmentos e partículas de plástico menores que 5 milímetros. Estes materiais abrangem uma gama muito ampla de tamanhos, desde alguns milímetros até micrómetros e mesmo nanômetros. A produção em massa de plásticos e a gestão inadequada dos seus resíduos favoreceram a sua dispersão em praticamente todos os compartimentos ambientais: ar, água doce, solos e oceanos.
Os microplásticos podem ter origem em produtos de uso diário, como têxteis sintéticos, cosméticos e produtos de cuidados pessoais, desgaste de pneus ou processos industriais que utilizam partículas plásticas. Uma vez libertados no ambiente, as pessoas podem entrar em contacto com eles por inalação, ingestão de água e alimentos contaminados ou, em menor medida, através da pele. Estudos experimentais têm mostrado que esta exposição pode estar associada a alterações metabólicas, processos inflamatórios, problemas reprodutivos e outros efeitos tóxicos em modelos animais, embora a magnitude desses efeitos em humanos ainda esteja sendo investigada.
Microplásticos como vectores de substâncias potencialmente cancerígenas
Além do seu efeito físico como partículas, os microplásticos apresentam uma grande superfície específica que lhes permite adsorver poluentes químicos presentes no ambiente, incluindo metais pesados e compostos orgânicos persistentes. Por outro lado, muitos plásticos contêm aditivos incorporados durante a sua fabricação para melhorar propriedades como flexibilidade, resistência ou estabilidade. Estes aditivos incluem ftalatos, bisfenóis, éteres de polibromodifenilo, perfluoroalquilados e outros compostos que foram submetidos a uma avaliação toxicológica.
Uma análise prévia de milhares de microplásticos conhecidos identificou mais de 150 aditivos com propriedades cancerígenas demonstradas. No entanto, cerca de 90% dos aditivos plásticos ainda não têm dados suficientes para avaliar com certeza seu potencial cancerígeno. Esta falta de informação completa limita a capacidade de quantificar o risco real associado à exposição crónica a plásticos e seus derivados na população em geral.
Evidências atuais sobre microplásticos e risco de câncer
Diante da crescente preocupação, uma meta-análise recente reuniu estudos de coorte e estudos de caso e controle para avaliar sistematicamente a relação entre a exposição a microplásticos e a incidência de câncer. Foram incluídos trabalhos que mediram estes compostos no soro, urina, tecidos humanos ou a partir do histórico de exposição, e que relataram dados sobre aparecimento de câncer em adultos.
Os resultados mostraram que, em estudos de caso e controle, a exposição a contaminantes relacionados aos microplásticos foi associada a um aumento modesto do risco global de câncer. Em particular, os ftalatos destacaram-se como um fator de risco significativo neste tipo de estudos. No entanto, nos estudos de coorte não foi observada uma associação estatisticamente significativa entre a exposição e o risco de câncer. Esta discrepância sugere que, com a evidência disponível, a relação entre microplásticos e câncer pode ser fraca e ainda sujeita a múltiplas fontes de incerteza metodológica.
É importante salientar que os estudos incluídos diferem no tipo de substâncias analisadas, nos métodos de medição da exposição e nas características das populações estudadas. Além disso, muitos compostos relevantes ainda não foram avaliados em profundidade. Por isso, os autores da meta-análise concluem que são necessárias mais pesquisas, com designs robustos e medições padronizadas, para esclarecer o impacto real da contaminação por microplásticos na carcinogênese humana.
Implicações para a saúde pública e investigação futura
Embora as evidências atuais apontem para uma possível associação fraca entre a exposição a contaminantes derivados de microplásticos e câncer, a combinação de sua onipresença ambiental, A persistência destes materiais e a presença de aditivos potencialmente perigosos justifica uma abordagem preventiva. É prioritário melhorar a gestão dos resíduos plásticos, reduzir o uso de certos aditivos de risco conhecido e avançar na monitorização de microplásticos em água, alimentos e ar.
Do ponto de vista científico, são necessárias estratégias integradas de investigação que combinem estudos epidemiológicos a longo prazo, análises toxicológicas detalhadas e o desenvolvimento de métodos analíticos capazes de detectar e caracterizar micro e nanoplasticos em matrizes biológicas. Para os profissionais e formuladores de políticas de saúde, compreender esses processos é fundamental para projetar programas de vigilância, regulamentação e educação destinados a minimizar a exposição da população.
Neste contexto, a formação avançada em áreas como toxicologia, farmacologia e avaliação de riscos ambientais é fundamental. Programas acadêmicos como o Mestrado em Ciências Farmacêuticas da FUNIBER oferecem uma base sólida para analisar de forma crítica a evidência científica disponível, interpretar estudos como as meta-análises recentes sobre microplásticos e câncer, contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e controlo que protejam a saúde pública contra os poluentes emergentes.
