Criatividade para além dos laboratórios
Quando se fala em inovação, a imagem predominante costuma ser a de laboratórios de alta tecnologia, grandes centros de investigação ou sedes corporativas. No entanto, pesquisas recentes mostram que uma parte decisiva da inovação nasce em espaços muito mais cotidianos. A criatividade é estimulada nas ruas, no café do bairro, no trajeto de metrô ou em conversas fortuitas em uma sala de espera. Esses encontros informais geram troca de ideias, vínculos sociais e uma circulação de conhecimento que geralmente não aparece nas estatísticas tradicionais, mas que é fundamental para compreender como as cidades se transformam.
Essa visão desloca o foco das infraestruturas tecnológicas para a vida urbana cotidiana. As interações presenciais, a diversidade de perfis das pessoas e a concentração de atividades em um mesmo ambiente configuram um ecossistema no qual a criatividade se “espalha” e alimenta processos de inovação mais amplos. Não se trata apenas de grandes descobertas científicas, mas também de mudanças pequenas, cumulativas e distribuídas pelo território.
Madri como laboratório de criatividade
Um estudo publicado na revista científica Growth and Change analisou como a criatividade e a capacidade de inovação se difundem entre as pessoas que vivem e trabalham na região metropolitana de Madri. A análise baseou-se em dados de quase três milhões de trabalhadores registrados na Seguridade Social em 2016, com informações tanto sobre o local de trabalho quanto sobre o local de residência. A partir desses dados, foi desenvolvido um modelo de contágio social que compara a propagação de ideias e conhecimentos ao funcionamento de um vírus.
A lógica do modelo é simples, mas poderosa. As pessoas que trabalham em setores de alta intensidade de conhecimento e aquelas que atuam em indústrias culturais e criativas funcionam como focos de difusão. Por meio de sua presença e de suas interações cotidianas, elas influenciam as pessoas ao seu redor, seja no ambiente de trabalho, seja no bairro onde vivem. Em seguida, o estudo verificou se os padrões de difusão dessa criatividade e capacidade de inovação estavam associados à criação de novas empresas em cada área.
O peso oculto da criatividade local
Os resultados do estudo mostram que tanto a criatividade quanto a capacidade de inovação estão positivamente relacionadas à criação de empresas. No entanto, quando ambas são analisadas em conjunto, a associação da criatividade se mostra mais robusta. Em outras palavras, os trabalhadores das indústrias culturais e criativas exercem um impacto sobre a economia local que vai além da produção de suas próprias atividades. Sua presença transforma o ambiente do bairro, diversifica as redes de contato e cria condições favoráveis para que outras pessoas inovem.
Essa constatação relativiza a ideia de que a inovação depende quase exclusivamente de perfis tecnológicos, como engenheiros ou cientistas. Profissionais como arquitetos, designers, artistas, criadores audiovisuais ou desenvolvedores de jogos eletrônicos também impulsionam a inovação, embora sua contribuição seja mais difícil de medir por meio de indicadores tradicionais. O modelo de contágio social permite captar esse efeito indireto, que se manifesta no surgimento de novos projetos empresariais e criativos em seu entorno mais próximo.
Diferentes lógicas territoriais de difusão
A pesquisa também revela que a criatividade e a inovação não se difundem da mesma forma em todo o território metropolitano. A criatividade aparece como um fenômeno mais amplo e menos seletivo, que alcança tanto os bairros centrais de Madri quanto outros núcleos da região metropolitana, como Alcobendas e Alcalá de Henares. Ela se expande onde há diversidade de usos urbanos, densidade de vida nas ruas e intensa interação social.
Já a inovação tecnológica circula por canais mais especializados. Ela se concentra em torno de distritos empresariais, como AZCA, em parques empresariais e tecnológicos, como o de Tres Cantos, ou nas proximidades de campi universitários voltados às ciências. Sua difusão depende de infraestruturas e ambientes específicos vinculados à pesquisa e desenvolvimento (P&D) e às atividades de alta tecnologia. Um dado curioso do estudo é que o entorno do Museu do Prado apresenta níveis de difusão criativa mais baixos do que o esperado, em parte devido à escala urbanística e à menor intensidade de interação gerada pelos grandes equipamentos culturais isolados.
Implicações para as políticas urbanas
Essas diferenças espaciais têm consequências importantes para o desenho de políticas urbanas. Muitas cidades apostam principalmente em parques tecnológicos, investimento direto em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e na atração de empresas de alta tecnologia para impulsionar seu desenvolvimento. Embora essas estratégias continuem sendo necessárias para fortalecer a capacidade formal de inovação, o estudo sugere que elas são insuficientes quando se negligencia o papel da criatividade cotidiana que emerge nos bairros.
As políticas culturais também devem ser compreendidas como políticas de inovação. Investir em bairros criativos, estimular a vida cultural local e promover espaços de uso misto, onde coexistam moradia, comércio, cultura e trabalho, gera um retorno econômico concreto. Além disso, a inovação não é um patrimônio exclusivo das áreas centrais da cidade; o talento criativo também está presente nas periferias, onde políticas que favoreçam a conectividade, a interação social e a oferta cultural podem liberar um potencial ainda subaproveitado.
Formação para uma gestão estratégica da cidade criativa
A distinção entre capacidade de inovação e impulso criativo convida a repensar a formação dos profissionais que tomam decisões sobre a cidade. Quem lidera administrações públicas, organizações culturais e empresas urbanas precisa compreender que a criatividade se propaga nas ruas e nos bairros, e não apenas em laboratórios ou polos tecnológicos. Nesse sentido, programas como o Mestrado em Direção Estratégica oferecido pela FUNIBER fornecem ferramentas para elaborar estratégias de desenvolvimento urbano e empresarial que integrem a inovação tecnológica à dinamização cultural e social dos territórios, articulando de forma mais eficaz o potencial criativo local com objetivos de crescimento sustentável.
Fonte: Adaptado de The Conversation. Informações complementares sobre criatividade urbana e inovação estão disponíveis na revista Growth and Change e em materiais sobre políticas urbanas da ONU-Habitat.
