A alimentação como fator-chave na esperança de vida
Nas últimas décadas, a esperança de vida deixou de crescer ao ritmo esperado. Entre os fatores que explicam esta estagnação, a alimentação ocupa um lugar central. O Estudo sobre a Carga Global de Doença apontou que uma alimentação pouco saudável é uma das principais causas de morte a nível mundial, o que coloca a nutrição no centro das estratégias de prevenção. Neste contexto, reveste-se de especial relevância um estudo prospetivo publicado na revista «Science Advances», que analisa a relação entre diferentes padrões alimentares saudáveis, a longevidade genética e os anos de vida que se podem ganhar ao melhorar a alimentação.
O estudo: mais de 100 000 pessoas acompanhadas durante uma década
A investigação foi realizada com 103 649 participantes do UK Biobank, uma coorte britânica de adultos de meia-idade e idosos. Nenhuma destas pessoas apresentava doenças cardiovasculares nem cancro no início do acompanhamento, e todas tinham pelo menos duas avaliações alimentares. A idade média no início do estudo era de 58,3 anos e 56,4% eram mulheres. Durante um período médio de acompanhamento de 10,6 anos, registaram-se 4 314 óbitos por qualquer causa. Graças a esta vasta base de dados, os investigadores puderam comparar a qualidade da alimentação, a mortalidade e a esperança de vida, incluindo também a componente genética associada a uma maior ou menor longevidade.
Que padrões alimentares foram analisados
O trabalho centrou-se em cinco padrões alimentares definidos a priori, com base na evidência científica acumulada sobre saúde e doenças crónicas. Foi avaliada a adesão ao Índice Alternativo de Alimentação Saudável de 2010 (AHEI-2010), ao padrão da dieta mediterrânica alternativa (Alternate Mediterranean Diet, AMED), ao Índice de Dieta à Base de Plantas Saudável (Healthful Plant-based Diet Index, hPDI), na abordagem dietética para combater a hipertensão (Dietary Approaches to Stop Hypertension, DASH) e na dieta de redução do risco de diabetes (Diabetes Risk Reduction Diet, DRRD). Estes padrões caracterizam-se, com nuances distintas, por darem prioridade a alimentos de origem vegetal, cereais integrais, gorduras de qualidade e um menor consumo de açúcares adicionados, sal e produtos ultraprocessados. A literatura científica já tinha associado estas dietas a um menor risco de doenças crónicas e mortalidade, mas o seu impacto concreto em anos de vida ganhos não estava completamente definido.
Para mais detalhes metodológicos e resultados específicos, o artigo original pode ser consultado na revista *Science Advances*, e a sua relevância pode ser contextualizada em relação à carga global de doença nos recursos do *Global Burden of Disease* e às recomendações nutricionais da Organização Mundial de Saúde.
Anos de vida ganhos com uma alimentação mais saudável
A principal conclusão do estudo é que uma maior adesão a qualquer um dos cinco padrões alimentares saudáveis se associou a uma menor mortalidade por todas as causas e a uma maior esperança de vida. Ao comparar o quintil mais baixo de qualidade alimentar com o quintil mais alto, os investigadores estimaram entre 1,9 e 3,0 anos de vida adicionais aos 45 anos nos homens e entre 1,5 e 2,3 anos adicionais nas mulheres. Embora todas as dietas analisadas tenham demonstrado benefícios, a DRRD apresentou associações ligeiramente mais fortes com a esperança de vida nos homens, enquanto o padrão AMED foi o que acrescentou mais anos de vida nas mulheres. Estes resultados são apresentados em termos de «vida ganha», uma métrica absoluta que facilita a compreensão do impacto da alimentação diária, tanto para os cidadãos como para os responsáveis pelas políticas públicas, em comparação com indicadores mais técnicos, como os rácios de risco (hazard ratios).
A genética da longevidade é importante?
Um dos aspetos mais interessantes do estudo é a inclusão da suscetibilidade genética a uma menor esperança de vida. Sabe-se que determinados perfis genéticos influenciam tanto a longevidade como a forma como o organismo gere os nutrientes e metaboliza a alimentação. No entanto, a questão fundamental é se uma boa alimentação pode compensar, pelo menos em parte, uma predisposição genética desfavorável. Os resultados mostraram que as associações entre padrões alimentares saudáveis, menor mortalidade e maior esperança de vida se mantinham mesmo depois de ter em conta a suscetibilidade genética. Por outras palavras, seguir uma alimentação de qualidade esteve associado a mais anos de vida, independentemente da presença de genes ligados a uma menor longevidade. Embora o estudo não permita afirmar que a alimentação anule completamente o efeito da genética, reforça a ideia de que os fatores modificáveis do estilo de vida continuam a ser determinantes.
Implicações para a saúde pública e a formação em nutrição
A mensagem fundamental é que melhorar a qualidade global da alimentação, em vez de se centrar apenas em nutrientes isolados, pode traduzir-se em anos de vida adicionais. Para os profissionais de saúde, de nutrição e de planeamento de políticas públicas, estes resultados sublinham a necessidade de promover padrões alimentares saudáveis, acessíveis e sustentáveis a longo prazo. Além disso, destacam a importância de uma formação sólida e atualizada em nutrição, baseada em evidências científicas. Programas académicos como o Mestrado Internacional em Nutrição e Dietética, oferecido pela FUNIBER, permitem aprofundar a análise crítica de estudos de coorte, a interpretação de padrões alimentares complexos e a conceção de intervenções nutricionais que integrem tanto a dimensão clínica como a da saúde pública, contribuindo para transformar esses conhecimentos em estratégias concretas para melhorar a esperança e a qualidade de vida da população.
Fonte do texto: Adaptado e elaborado a partir de: Li, W. et al. (2026). Healthy dietary patterns, longevity genes, and life expectancy: A prospective cohort study. Science Advances. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.ads7559
