O que é, na verdade, a espuma do mar
Ao passear pela praia num dia ventoso, é comum observar como as ondas, ao rebentarem, geram espuma abundante. Para além do seu encanto visual, este fenómeno dá-nos pistas importantes sobre o estado do ecossistema marinho próximo da costa. A espuma do mar forma-se quando a energia das ondas e do vento agita a água do mar, que contém matéria orgânica dissolvida, principalmente plâncton e outros organismos microscópicos. Esta agitação gera uma dispersão de água e bolhas de ar que sobem e se agrupam na superfície sob a forma de espuma, um sistema coloidal relativamente instável.
Essa matéria orgânica atua reduzindo a tensão superficial da água, uma propriedade físico-química que faz com que os líquidos se comportem como se estivessem revestidos por uma fina membrana elástica. Quando a tensão superficial diminui, torna-se mais fácil que o ar se disperse na água e se formem pequenas bolhas que persistem o tempo suficiente para se agruparem em camadas visíveis de espuma. Este mesmo princípio está na base do funcionamento de muitos processos industriais e do quotidiano que exigem a mistura de fases que, naturalmente, não se combinam.
A química por trás das bolhas
Para que duas fases imiscíveis, como a água e o ar ou a água e o óleo, possam interagir de forma estável, é necessário incorporar tensioativos. Estes compostos possuem uma parte hidrofílica e outra hidrofóbica que se orientam na interfase entre ambas as fases e atuam como uma ponte que facilita a sua dispersão. No caso do oceano, muitos compostos orgânicos presentes naturalmente funcionam como tensioativos e permitem a formação de pequenas bolhas de ar envoltas por uma fina camada de água rica em matéria orgânica.
Esta propriedade é fundamental em contextos muito diversos. Na formulação de produtos agroquímicos, ajuda a melhorar a biodisponibilidade das substâncias ativas; na biodegradação de marés negras, favorece a interação entre hidrocarbonetos e microrganismos; e na recuperação de solos contaminados com combustíveis, facilita a libertação dos contaminantes para que possam ser tratados. Mesmo em tarefas tão quotidianas como lavar a roupa, os detergentes recorrem a este mesmo mecanismo de redução da tensão superficial para eliminar manchas de gordura difíceis de remover.
Luz, cor e aspeto da espuma
O aspeto da espuma está intimamente relacionado com o comportamento da luz. A radiação solar que chega à Terra é composta por radiação visível, infravermelha e ultravioleta, e caracteriza-se pelo seu comprimento de onda e frequência. O olho humano apenas percebe uma pequena faixa do espectro, aproximadamente entre 400 e 700 nanómetros. Quando a luz incide sobre um objeto, parte dessas comprimentos de onda é absorvida e outras são refletidas; apenas as refletidas são as que percebemos como cor.
O mar, embora seja composto por água transparente, assume tonalidades azuis devido à absorção seletiva da luz, modulada pela sua composição química, pela vida marinha e pelas condições atmosféricas. A espuma, no entanto, é geralmente vista como esbranquiçada porque as bolhas de ar que a compõem dispersam e refletem a luz em praticamente todas as direções, sem a absorver de forma significativa. Esta realidade contrasta com o uso do termo «cor espuma do mar» na moda ou na decoração, onde se alude a um tom entre o verde e o azul inspirado no imaginário marinho, mais do que no aspeto físico real da espuma.
Como interpretar a espuma para avaliar a saúde do mar
O aspeto da espuma pode servir como um indicador rápido da qualidade ambiental da zona costeira. Uma espuma branca, leve e que desaparece quase instantaneamente costuma ser sinal de um ecossistema relativamente saudável, onde a matéria orgânica e as condições físicas da água se mantêm dentro de limites naturais. Em contrapartida, quando a espuma persiste durante muito tempo, apresenta uma densidade invulgarmente elevada, adquire colorações escuras ou acastanhadas ou exala odores desagradáveis, é provável que exista algum tipo de poluição.
Essa poluição pode ser química, associada à chegada ao mar de fertilizantes agrícolas, descargas industriais ou águas residuais urbanas, ou biológica, como acontece no caso de um crescimento desmedido de certas algas que alteram a composição da água e geram espumas problemáticas. Um exemplo recente deste tipo de fenómenos são os episódios de formação massiva de espuma registados nas praias do sul da Austrália durante os verões austrais de 2025 e 2026, associados a proliferações de algas nocivas e com graves consequências para a fauna marinha e a saúde humana, tal como documentado por investigadores na The Conversation e em análises específicas sobre proliferações algais catastróficas.
Proteção costeira e formação ambiental
A observação da espuma não substitui as medições científicas da qualidade da água, mas oferece ao público uma ferramenta simples para suspeitar de possíveis problemas ambientais e exigir controlos mais rigorosos. Conhecer estes sinais visíveis ajuda os turistas, residentes e autoridades locais a tomarem decisões mais informadas sobre a utilização recreativa das praias e a necessidade de proteger os ecossistemas costeiros. Iniciativas de educação ambiental que explicam estes fenómenos permitem estabelecer uma melhor ligação entre a experiência quotidiana de um passeio à beira-mar e conceitos-chave de química, física e ecologia marinha, apoiando-se também em recursos divulgativos de referência, como o The Conversation, ou em materiais educativos especializados em cor e perceção visual.
Neste contexto, a formação avançada em gestão ambiental torna-se fundamental para conceber políticas públicas, programas de monitorização costeira e estratégias de prevenção da poluição que abordem tanto as suas causas como os seus efeitos visíveis, entre os quais a alteração da espuma marinha. Programas académicos como o Mestrado em Gestão e Auditorias Ambientais da FUNIBER oferecem ferramentas técnicas e metodológicas para avaliar a qualidade ambiental, interpretar indicadores observáveis em ambientes costeiros e desenvolver planos de ação que contribuam para a conservação de praias saudáveis e ecossistemas marinhos resilientes.
Fonte: Adaptado de The Conversation: «O que nos diz a espuma do mar sobre a saúde das praias?» (CC BY-SA / CC BY-ND).
