Inteligência artificial generativa nas salas de aula: uma mudança que já começou
Desde o final de 2022, a inteligência artificial generativa deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma ferramenta cotidiana na universidade. Chatbots como o ChatGPT e outros assistentes semelhantes já participam na pesquisa de informações, na redação de textos e na concepção de atividades académicas. Esta mudança tem um impacto direto na formação docente, porque serão os professores do futuro que decidirão como, quando e para que integrar estas tecnologias na sala de aula.
Um estudo recente realizado com professores em formação na República Dominicana, matriculados em disciplinas de Práticas Docentes profissionalizantes, oferece uma primeira radiografia de como esse coletivo percebe, utiliza e avalia os chatbots de inteligência artificial generativa para fins pedagógicos. Os seus resultados são fundamentais para orientar a política educacional, o desenho curricular e a formação inicial de professores em contextos latino-americanos.
O que os futuros professores pensam sobre os benefícios dos chatbots
Os participantes do estudo mostram uma percepção predominantemente positiva sobre os benefícios pedagógicos dos chatbots de inteligência artificial generativa. Eles os consideram ferramentas complementares, fáceis de usar e úteis para apoiar tanto a sua própria aprendizagem quanto o planeamento do ensino.
Entre os usos que mais se destacam estão a pesquisa rápida de informações, a geração de ideias para atividades e recursos didáticos e o apoio na concepção de estratégias de ensino. Essas avaliações coincidem com pesquisas realizadas em outros países que indicam que os estudantes universitários percebem os chatbots como assistentes versáteis para esclarecer conteúdos, estruturar trabalhos e explorar novas formas de apresentar informações académicas (Chan e Hu, 2023; Urban et al., 2024).
Essa percepção de utilidade e facilidade de uso é especialmente relevante à luz de modelos como o Technology Acceptance Model (TAM), que vincula diretamente esses fatores à intenção de adotar uma tecnologia em contextos educacionais.
Riscos percebidos: dependência, plágio e qualidade da informação
Juntamente com os benefícios, os professores em formação também identificam riscos associados ao uso de chatbots de inteligência artificial. Entre as principais preocupações surgem a possível dependência tecnológica, o incentivo a práticas desonestas, como o plágio, e a incerteza sobre a qualidade, profundidade e precisão das informações geradas.
Embora a maioria das respostas se situe em posições neutras em relação aos riscos, existe a consciência de que os chatbots podem oferecer conteúdos superficiais, imprecisos ou enganosos, algo que já foi apontado por outros estudos ao alertar sobre a necessidade de contrastar e verificar as informações produzidas por essas ferramentas (Jarrah et al., 2023; Imran e Lashari, 2023). Essas preocupações estão diretamente relacionadas com o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da integridade académica, competências centrais na formação docente.
O estudo revela ainda que uma maior perceção dos riscos está associada a uma menor utilização prática dos chatbots e a atitudes menos favoráveis à sua integração no ensino, o que indica que a abordagem destes receios deve ser parte explícita da formação inicial.
Como eles realmente utilizam os chatbots nas suas práticas pedagógicas
Na prática, os futuros professores dominicanos afirmam usar os chatbots principalmente para planear aulas, procurar ideias e conceber estratégias e recursos pedagógicos durante os seus estágios de formação profissional. Ou seja, a IA generativa está a ser incorporada sobretudo na fase de preparação do ensino, mais do que na interação direta com os alunos.
Por outro lado, persistem dúvidas importantes sobre o uso de chatbots para avaliar a aprendizagem, conceber instrumentos de avaliação ou avaliar o desempenho dos alunos. Esta cautela está em consonância com os debates internacionais que alertam para os riscos de delegar julgamentos avaliativos complexos em sistemas automáticos e reforça a necessidade de formar os professores em avaliação autêntica e uso crítico da tecnologia.
Uma descoberta relevante é que, embora não sejam observadas diferenças significativas por sexo, idade, tipo de universidade ou curso, detecta-se uma ligeira relação positiva entre o ano letivo cursado e o uso de chatbots na prática pedagógica: aqueles que estão em cursos mais avançados tendem a perceber e aproveitar mais as suas possibilidades.
Atitudes em relação à IA na formação e na futura profissão docente
Para além da utilização atual, o estudo revela atitudes maioritariamente favoráveis à integração de chatbots tanto nas práticas docentes universitárias como no futuro exercício profissional. Os participantes valorizam especialmente o seu potencial para apoiar a conceção de estratégias didáticas, enriquecer as aulas e facilitar o acesso a recursos educativos.
No entanto, essa abertura coexiste com uma atitude cautelosa em relação à sua incorporação formal nas práticas pedagógicas autênticas e à fiabilidade das informações geradas. Essa ambivalência está alinhada com marcos teóricos como a Teoria da Difusão de Inovações e a Teoria Unificada de Aceitação e Uso da Tecnologia, que apontam que a decisão de adotar uma inovação depende tanto da percepção de vantagens claras quanto da gestão dos riscos e da experiência prática de uso.
Os resultados do estudo reforçam a ideia de que uma perceção positiva dos benefícios está intimamente associada, de forma bidirecional, a um maior uso e a atitudes mais favoráveis em relação à IA generativa. Por outro lado, quando os riscos percebidos predominam, tanto o uso como a disposição para integrá-la na sala de aula diminuem.
Implicações para a formação docente e a ligação com a FUNIBER
A análise das perceções, práticas e atitudes dos professores em formação na República Dominicana em relação aos chatbots de inteligência artificial generativa oferece mensagens claras para a política educacional e a elaboração curricular. É necessário incorporar explicitamente na formação inicial espaços para trabalhar não apenas o uso instrumental dessas ferramentas, mas também as suas implicações éticas, o seu impacto na avaliação, a integridade académica e a equidade no acesso. Nesse sentido, programas de pós-graduação como o Mestrado em Educação promovido pela FUNIBER oferecem um quadro ideal para aprofundar a concepção de estratégias didáticas inovadoras apoiadas em IA, o desenvolvimento do pensamento crítico em relação às tecnologias emergentes e a construção de políticas institucionais que orientem um uso responsável, reflexivo e pedagogicamente sólido da inteligência artificial na formação docente.Fonte do texto: Taveras-Sánchez, B. Y., & Figueroa Figueroa, R. (2025). Percepção sobre a inteligência artificial de professores em formação na República Dominicana. Comunicar, 33(83), 115-127. https://doi.org/10.5281/zenodo.17217320
