O paradoxo de passar sem participar
Em muitas salas de aula, o objetivo explícito de grande parte dos alunos é passar com uma determinada nota, e não tanto envolver-se no processo de aprendizagem. Há alunos que ouvem, cumprem os trabalhos e respondem quando lhes é perguntado, chegando mesmo a obter bons resultados académicos, mas participam pouco e evitam expor-se. Não basta que os conteúdos sejam interessantes ou que as atividades estejam bem concebidas. Um fator decisivo é a forma como o professor se apresenta perante o grupo e o tipo de relação que estabelece com os seus alunos e com a própria disciplina.
Quando o professor admite que pode errar
Vários estudos confirmam algo que muitos professores já intuíam: os alunos envolvem-se mais quando os seus professores admitem dúvidas ou erros. Em contextos em que o professor reconhece que não sabe tudo, aumenta a sensação de aceitação e pertença e diminui o medo de errar. O erro deixa de ser visto como uma ameaça e transforma-se numa oportunidade para explorar.
Em salas de aula onde errar implica o risco de ridicularização ou julgamento, a reação mais comum dos alunos é o silêncio, mesmo entre aqueles que estão realmente interessados na matéria. Em contrapartida, quando os professores normalizam o erro, os alunos ousam perguntar, tentar e reformular. Tal como apontam as investigações sobre a gestão construtiva do erro, estes ambientes geram maior confiança e crenças mais adaptativas sobre a aprendizagem, transformando a sala de aula num espaço de exploração e não apenas de procura da resposta correta.
Menos controlo e mais confiança para aprender
Durante décadas, a autoridade docente tem sido associada a um controlo rigoroso e à distância emocional. No entanto, os estilos autoritários têm sido associados a um menor bem-estar e a um maior esgotamento por parte dos alunos, o que se reflete diretamente na sua motivação e desempenho. As evidências apontam, assim, a favor de modelos de ensino baseados na confiança e no acompanhamento.
Segurança emocional e sentimento de pertença
Aprender é um processo que envolve tanto a vertente cognitiva como a emocional. Quando os alunos sentem proximidade, compreensão e justiça por parte do professor, tendem a apresentar menos ansiedade e maior envolvimento. Sentir-se emocionalmente seguro não é um complemento à aprendizagem, mas sim uma condição de possibilidade: quando os alunos se sentem respeitados, conseguem concentrar-se em compreender; quando não, parte da sua energia é gasta a proteger-se.
O professor como aprendiz e a forma de corrigir
Outro sinal forte de humildade intelectual é o professor mostrar-se como alguém que continua a aprender. Não apenas através de discursos, mas na prática diária: quando incorpora sugestões dos alunos, revê as suas abordagens ou admite que precisa de consultar uma fonte antes de responder. Esta abordagem está em consonância com as orientações de organismos internacionais que promovem a aprendizagem ao longo da vida como uma atitude de abertura à mudança e ao questionamento.
O que os alunos realmente recordam
A relação com os professores é um dos fatores que mais influencia a aprendizagem. Com o tempo, muitos alunos esquecem grande parte dos conteúdos específicos, mas não esquecem como se sentiram ao aprendê-los nem o tratamento que receberam. A questão deixa de ser apenas o quanto o professor sabe para se tornar que experiência de aprendizagem ele é capaz de proporcionar.
Quando a sala de aula se torna um espaço onde se pode perguntar, errar e participar sem medo, não só melhora o desempenho académico, como também se reforça a relação dos alunos com o conhecimento e com a sua própria capacidade de aprender. A humildade intelectual não implica renunciar à exigência, mas sim exercê-la de forma mais justa, próxima e eficaz. Muitas vezes, ensinar bem não consiste em demonstrar o que se sabe, mas sim em criar as condições para que os outros queiram e se atrevam a aprender.
Fonte: Adaptado de The Conversation: «Errei»: uma forma de melhorar a participação e a confiança na sala de aula, com base na literatura científica referenciada no artigo original.
